segunda-feira, 12 de agosto de 2013






Degustação:

A Fonte da Juventude

“Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.”
João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Os alquimistas buscavam a fonte da eterna juventude, entre outras coisinhas básicas e simples desse tipo.
Essa é a fonte que muita gente busca e, surpreendentemente, encontra com a maior facilidade. Na verdade a fonte da juventude nem precisa ser procurada, ela é dada de graça a todos. Não existe nada oculto e misterioso neste mundo e tudo está tão revelado, tão óbvio, na nossa frente, tudo pronto para o uso. Nós é que não conseguimos enxergar ou ler direito a vida e, às vezes, confundimos as coisas.
É na fonte da juventude que a maioria das pessoas mergulha, porém elas se esquecem de que essas águas estão sempre fadadas a diminuir, ou seja, essa é a fonte que seca a cada dia e quem permanecer nela ficará desidratado e morrerá de sede. Talvez o melhor seja realmente descobrir e identificar essa fonte, mas para sair dela o mais rápido possível!
Parece-me melhor e mais garantido mergulhar o quanto antes na fonte da velhice, pois essa é a fonte cujas águas aumentam com o passar do tempo. Nela você estará seguro. Nunca haverá sede e sempre haverá água em abundância; seu corpo não se ressecará e sempre será refrescado; se a fonte encher demais, você terá tempo suficiente para aprender a nadar; se for água demais para você, compartilhe-a com os outros; quanto mais velho você estiver, mais água brotará da sua fonte e será bom que os jovens sedentos venham beber daquilo que você puder oferecer.
Quanto mais cedo aceitarmos a velhice e mergulharmos na sua fonte, menos o tempo nos ressecará.
Não brigue com o tempo e ele não brigará com você; desafie-o e você será destruído, pois não existe rejuvenescimento; o tempo que passa não volta exatamente igual e isso é uma das maiores sabedorias do universo.
Pense no pior momento da sua vida, no acontecimento mais trágico e doloroso. Existem na vida alguns minutos que nós achamos que nunca passarão ou que nós não sobreviveremos a eles. Mas nós sobrevivemos, o tempo ameniza a dor das feridas e voltá-lo significaria sofrer pelas mesmas coisas, exatamente da mesma maneira. Eu não quero isso! Acho que seria um dos piores castigos que a vida poderia nos dar. Entendo que nós, seres humanos, não aguentaríamos; não somos tão fortes assim. Já que a vida tem dificuldades, pelo menos que não sejam repetidas, afinal estamos no mundo para progredir.
Alguém poderia argumentar que precisamos lembrar ou rever nosso passado para compreender seu significado e aprender coisas para o futuro, e com isso eu concordo totalmente, mas vejam que esse tipo de atitude é totalmente diferente de querer voltar no tempo, seja por qual motivo for: rejuvenescer, consertar algum erro, evitar uma tragédia e assim por diante.
Concordo que a vida é cíclica, que tudo que vivemos e fazemos permanece em nós, e esses atos sofrem metamorfoses ao longo da nossa vida, retornando periodicamente sob formas variadas, mas muitas coisas boas e más se repetem, quem sabe porque sejam nossa missão, talvez para nos ensinar algo ou para serem corrigidas. O fato é que o passado e o futuro estão sempre em nós, ao mesmo tempo.
Vamos aceitar o passado como uma aquisição, como o tempo que já é nosso, o tempo que já vivemos e que ninguém nos tira mais.
Com a memória podemos passear à vontade nesse tempo passado e mudar o significado de várias coisas que já aconteceram, mas principalmente mudar nosso sentimento em relação a elas. Só assim podemos mudar o passado em nós, e é isso o que importa, é isso que pode aliviar nossas dores.
Na vida só existem duas certezas: a morte e o tempo que passou. Essas são nossas duas garantias, as únicas coisas que temos como certas. Por que então não as usarmos como referências firmes para nossas vidas? Por que as pessoas evitam tocar nesses assuntos se eles são os nossos dois maiores presentes recebidos? São as duas referências mais válidas e sólidas, diante das quais tudo se relativiza e que nos fazem ver com maior clareza o que é ou não essencial para nossa existência.
Por que considerar o tempo que passou como aquele que não temos mais, quando na verdade esse é o único tempo que realmente temos, pois é o que já vivemos e ninguém mais pode tirá-lo de nós? Não sabemos se teremos tempo futuro, ninguém sabe se vai morrer amanhã, mas todo mundo que hoje está vivo sabe que estava vivo ontem. Até o presente minuto você teve sua vida, mas o futuro não nos pertence.



 O Mergulho na Fonte da Velhice

O filósofo Cícero (103 – 43 a.C.) escreveu um maravilhoso texto sobre a velhice (Saber Envelhecer), no qual relata um ditado que já era antigo naquela época e que recomendava ser velho cedo se quiséssemos sê-lo por muito tempo. Cícero discordou desse ditado, alegando que preferia “ser velho por menos tempo do que sê-lo prematuramente”.
Sou mais propensa a concordar com o antigo ditado, pois entendo que ele sugere a precoce aceitação do destino de envelhecimento do ser humano e não uma incitação ao abandono da juventude. Acho que o “ser velho cedo” sugerido pelo ditado é no sentido metafórico; eu diria que é o mergulho na fonte da velhice o quanto antes, para sermos nutridos por ela por mais tempo, para adquirirmos sabedoria e, quem sabe, uma longevidade saudável e de acordo com as leis naturais.
Quem recusar espiritualmente a velhice e retardar a reflexão sobre esse assunto, por medo de confrontá-la, estará fadado ao sofrimento e a um envelhecer amargurado cuja percepção postergada será abrupta e dolorosa, pela falta de preparo psicológico e físico.
Nosso preparo para a velhice tem que começar antes que ela chegue. Quanto mais cedo melhor, pois menos desprevenidos ela nos encontrará.
O tempo não aceita diálogos e a única opção razoável é concordar com ele.
Lembro-me que fiz esse pacto de aceitação aos quatro anos de idade, quando ouvi uma conversa entre minha mãe e uma empregada que dizia com tom de crítica que uma determinada mulher estava velha. O comentário causou-me muita estranheza, pois eu não via qualquer problema no fato de alguém ser velho, uma vez que já sabia que todos crescem, ficam adultos, envelhecem e morrem, exceto os que morrem jovens. Naquele momento eu cheguei à conclusão, com muita convicção, de que não havia problema em ser velha, desde que eu ficasse bonita. Para mim, beleza não significa parecer jovem, mas ter a beleza própria do velho. Eu achava muitas velhas bonitas, adorava ver cabeleiras brancas, porém o máximo eram aquelas com rinsagem azul ou lilás, coisa bastante usual na época (década de 60). Muito depois, os punks começaram a usar cabelos coloridos e acreditou-se que fosse por rebeldia, entretanto eles nem mesmo foram originais. As lindas senhorinhas de cabelos azuis já estavam bem à frente do seu tempo e essa bela visão me fez mergulhar precocemente na fonte da velhice e aceitá-la como um presente do tempo.
Bem mais tarde, quase aos trinta anos, minha mãe perguntou se eu tinha feito alguma coisa para o tempo não me castigar, ao que respondi:
— Eu não brigo com ele para ele não brigar comigo.
Ela sorriu.
É assim. Sou velha desde criança e espero ser velha por mais longos e longos anos.
Confesso, entretanto, que há uma particularidade que me torna menos intolerante à velhice: nunca gostei de ser criança ou muito jovem. Não que isso dependesse de algum acontecimento externo, pois nada me faltou no sentido material ou psicológico. Meus pais eram inteligentes e esclarecidos, amorosos e dedicados à família. Pude estudar o que quis, sair e namorar. Também íamos à praia com frequência, fato da maior importância para quem ama o mar.
Creio que o fato de eu não ter gostado da infância seja devido às minhas questões internas, à minha personalidade, ao meu caráter e ao tipo de observação e sentido que eu tinha em relação à vida e ao mundo. Acho espantoso como a maioria das pessoas se refere à infância como a época mais feliz de suas vidas, quando tudo era mágico, fantástico, não havia responsabilidades nem preocupações.
Quanto a mim, sinto que a infância é uma época de muito medo, de muitas incertezas em relação ao futuro, de muitas limitações por causa da dependência dos adultos, do menosprezo que nossos problemas existenciais recebem, como se criança não tivesse nenhum problema. O pior de tudo são os inúmeros desejos frustrados, as frequentes incompreensões do nosso ponto de vista e a incomunicabilidade de alguns sentimentos e questões muito importantes para quem tem três anos, mas que são considerados bobagens de criança por quem tem trinta.
Quando ficamos mais maduros, continuamos tendo medos, incertezas e desejos frustrados, mas pelo menos temos mais recursos psicológicos para lidar com eles e mais autonomia para escolher soluções.
Pelo prisma da criança, o mundo adulto pode ser incoerente, perigoso, incompreensível. Imagine a ansiedade de um ser que se sente condenado a entrar para um mundo não razoável, cruel, ilógico e imprevisível? As crianças têm preocupações, sim, e elas sabem que assumirão responsabilidades que lhes parecem monstruosas e desumanas!
Por esses motivos é que não tenho um pingo de saudade da infância, pois eu já via tudo de um modo muito duro e a incerteza do futuro apavorava-me. Tinha medo de não ser capaz de me resolver neste mundo, era muito racional e não conseguia acreditar em fadas e Papai Noel, o que me deixava muito triste, pois devia ser um alento viver no mundo da fantasia, mas eu, por algum motivo, nunca fui jovem de espírito.
Ao longo da vida, várias pessoas, inclusive minha mãe, disseram-me que eu já nasci velha, o que nunca me ofendeu, pois é absolutamente verdadeiro. Lembro-me de outra pergunta feita por ela, pedindo-me para citar o melhor acontecimento de toda a minha adolescência, ao que respondi sem hesitar: “Foi o término!”. Mais uma vez ela riu muito.
Às vezes, a vida nos parece tão misteriosa, tão cheia de surpresas, passamos anos sem saber ao certo quem somos, a desconhecer nosso próprio corpo e caráter, que estão constantemente mudando, mesmo que nossa compreensão e nossas emoções nem sempre consigam acompanhar essas mudanças. Muitas vezes, quando chegamos a compreender as emoções da nossa adolescência, já chegamos ao portal da velhice e uma nova etapa totalmente diferente e assustadora nos espera!
A vida não nos dá muito tempo para festejar uma conquista: mal resolvemos uma etapa e a próxima já se apresenta urgente.
Nunca me adaptei à juventude e comecei a me sentir melhor no meu próprio corpo somente aos vinte e cinco anos, quando percebi que já tinha algumas histórias de vida para contar e já não precisava apenas ouvir as dos mais velhos.
Certo dia, assisti na TV a uma entrevista com Umberto Eco, na qual ele confessou que não se sentia feliz na infância e seus motivos eram muito semelhantes aos meus. Fiquei muito feliz ao saber que alguém de grande envergadura moral e intelectual teve a coragem de declarar em público que a infância não é nada parecida com um paraíso. Senti-me vingada! É por isso que ele é “o” Umberto Eco.
Pois bem, talvez o fato de me sentir tão inadequada na juventude tenha feito com que não sinta saudade dela e isso, sem dúvida, cria condições especiais para aceitar melhor o tempo vindouro, criando uma expectativa de melhora, de que a melhor época da vida será sempre a próxima.
Ter saudade da infância é ter saudade de si mesmo, como se já não existíssemos mais e tivéssemos ficado para trás, naquela época. Acho que muita gente nem tem saudade daquele tempo, mas daquela pessoa que era e ficou lá, que não veio junto com o corpo. É a sensação melancólica e saudosa de estar longe de si mesmo. Eu tenho saudade de algumas pessoas que eu amava, mas não tenho saudade do tempo passado e, sobretudo, não tenho saudade de mim, porque eu tenho certeza de que estou aqui e agora.
Nisso os quarenta anos são uma idade decisiva. Ela lhe mostra se você está aqui ou se ficou lá atrás.

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